terça-feira, 13 de novembro de 2012

O mexilhão e a greve



Caros amigos consultores, advogados, gestores de empresas entre outros que não recorrem e até abominam os transportes públicos.

Aqueles que, felizmente, tiveram a oportunidade de conseguir ter uma boa situação de vida aos 40 e que não precisam de utilizar os transportes públicos... Digam-me sinceramente: Estão ralados com a greve de amanhã? Aposto que não. Porque até vai haver menos trânsito para chegar ao trabalho de automóvel. É só vantagens.

É que aqueles que são considerados ricos em sede de IRS, mas que lutam para chegar ao fim do mês com algum na carteira, o vulgo mexilhão, vai penar, e muito, amanhã para conseguir ir trabalhar.

Alguns terão de pagar do seu bolso transportes alternativos, outros vão perder um dia de ordenado por não ter como chegar ao trabalho, outros vão deixar de receber o subsídio de almoço por trabalhar a partir de casa.  E reembolso da empresa de transportes habitual é mentira. Sim, porque, recorde-se, o passe está pago.

Já para não falar que muitos outros terão de levar as crianças para o trabalho. Sim, as crianças podem não ter aulas, mesmo que a professora lá esteja. Basta que o porteiro faça greve para que escola já não possa funcionar. E o mexilhão lá tem de pagar dois bilhetes em vez de um no tal transporte alternativo.

Sinceramente, será que não há outra maneira de reclamar privilégios adquiridos sem afectar o mexilhão?

Será que quem faz greve tem noção de que quem devia ouvir as reclamações e ser afectado pela greve estará no estrangeiro, tirará um dia de férias para descansar e "não se meter no meio da confusão" e nem sequer vai ligar a televisão para ver as notícias?

O mexilhão... Esse vai ter de esfalfar-se para ir trabalhar. Sair de casa mais cedo, chegar a casa mais tarde e, caso não tenha levado os filhos para o trabalho, estar com eles ainda menos tempo do que habitualmente. Isto sem esquecer ser esborrachado nos transportes ou ver o autocarro a passar sem abrir a porta, porque o resto dos mexilhões lá estarão ensardinhados.

Mas isso não importa aos líderes que até podem poupar no orçamento se não tiverem de pagar a quem vai ser obrigado a faltar amanhã, por não ter como chegar ao trabalho.

Não se arranjaria outra forma de lutar pelos direitos, sem prejudicar quem menos culpa tem? Sim, porque os mexilhões do sector privado que, já não bastava não terem aumentos reais há cerca de uma década, que nunca tiveram pagamentos de horas extraordinárias ou tolerâncias de ponto por dá cá aquela palha, agora ainda vêem os seus ordenados minguar, estão fartos de ter de pagar nos dias da greve. E sim, se o mexilhão do setor privado, se fizer greve, rapidamente vai engrossar as filas do desemprego.

E os que não são mexilhão... Nem dão pela greve. É certinho.

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